Do Χάος ao Sobrenatural

Do Χάος ao Sobrenatural

A Dúvida de Tomé, 1599, Caravaggio

Cháos não é bagunça.
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Sei que existe toda a mitologia para nos confrontar e explicar, em poucas linhas poéticas, o que é o Caos. A primeira configuração transcendente da organização de um pré-cosmos, uma organização anterior a organização definitiva em um sistema natural infinito. Só nesta introdução ficamos preocupados com a nossa capacidade de interpretação de uma palavra tão recorrente em nossos dias, Caos não é bagunça, Caos não é desorganização.
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A resposta para essa palavra que mais me satisfaz é a interpretação de Deleuze, porém citá-lo é chamar para mim uma atenção de autoridade, como se eu realmente soubesse o que ele estava falando quando chama a existência de Caótica. O mundo é um verdadeiro Caos, mas esse Caos não é o caos que falamos o tempo todo. Estou sendo redundante, né?
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Não é difícil perceber, em autores abertamente nietzscheanos, que eles possuem um problema pessoal com Platão. O centro desse icônico embate reside em uma interpretação quase que psicológica, afinal, Platão divide o mundo em duas partes, um mundo real e um mundo de ilusões, e eu sei que você sabe que o mundo real é o mundo das ideias, o mundo realíssimo, onde realmente reside o conhecimento. Na visão de Nietzsche Platão só cria o mundo das ideias por não conseguir confrontar o mundo real, o mundo tão bem interpretado por Heráclito no fragmento: um mesmo homem não pode banhar em um mesmo rio duas vezes.
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É abertamente expresso o descontentamento de Platão pela ideia de Heráclito, se o fluxo da vida é realmente tão incontrolável, ao ponto de em poucos segundos nós mudarmos, então o conhecimento nunca seria possível, porque nós precisamos de padrões. Se eu chamo o lápis de lápis é porque existe um lápis ideal que me garante que esse nome permaneça o mesmo em diferentes objetos que seguem um mesmo padrão. Deleuze diz que consegue imaginar Platão ficando assutado com o devir de Heráclito, contemplando o mundo e negando-o com medo da realidade, ao ponto de criar um conceito que é potencialmente destrutivo em si, se esse mundo não importa,é uma ilusão, por que eu devo me preocupar com essa vida? Com essa natureza? Com essas pessoas? Com esse vocabulário? A vida de Platão é provar que o conceito de mundo ideal não é destrutivo, e ele falha.

Uma acusação grave

Onde Platão falhou? É possível traçar a concepção de mundo, principalmente prevista na civilização grega antiga representada em Platão, mais do que em Aristóteles, um ideal de natureza infinita, uma natureza que se autossutenta enquanto nós a consumimos. Nessa relação de consumidor e ofertante a natureza é concebida como eternamente ofertante. Até aqui podemos compreender o quanto a natureza é objetificada, mas estamos falando de um mundo antigo na visão de um único homem e bem, como se já não fosse problemática essa relação, Platão inaugura o dualismo mais forte de todos os filósofos antigos: A separação total de mundos.
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Essa separação de mundos é considerada por Nietzsche uma praga herdada e potencializada pelo cristianismo. Afinal, Cristo veio inaugurar um Reino que não é desta terra, certo? Você já ouviu essa história e é possível que muitos repitam esse tipo de coisa até hoje, cristãos sinceros confusos quanto o que devem ou não fazer no mundo, pois o Reino não é daqui. Veja o quanto uma leitura filosófica pode gerar confusões cruéis.
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Platão foi amplamente aceito na Idade Média, até mesmo antes da própria Idade Média, e uma boa parte dos conceitos platônicos são repetidos dentro das mais diferentes igrejas até hoje, e qual é a preocupação disso? O dualismo de corpo e alma, reino dos homens e reino de Deus, governo da terra e governo celeste, tudo isso é autodestrutivo. Veja o quanto as pessoas repetem a ideia de que um dia o mundo será destruído e condenado enquanto uma parcela de salvos será transladada para um mundo das formas na figura de anjos.
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É difícil ver a quantidade de cristãos que não percebem que o Filho de Deus foi ascendido com um corpo, totalmente igual ao corpo comum, tão igual que mesmo sendo um Corpo Glorificado, ele possui marcas e cicatrizes. Vocês conhecem essa narrativa, Jesus Cristo morre e ressuscita. Na ressureição ele come, bebe, anda, corre, possui as mesmas feições e é tão normal que os discípulos nem o reconhecem quando o veem, porque ele é só um ser humano. Mesmo com sua ascenção a promessa que fica é que ele retornará. E esse retorno não é para levar, mas para restaurar a terra que desde o início Deus criou como habitação do ser humano. Os seres humanos levados, são aqueles que sofrerão a condenação eterna e não os salvos.
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Diante disso, a acusação de dualismo ao cristianismo só se estabelece porque existe uma parcela considerável de cristãos que repetem as ideias platônicas. Este mundo não é o do conhecimento verdadeiro, ele é só ilusório. Foi essa interpretação guiada por uma má compreensão da realidade que tornou a nossa concepção de natureza, vida e humanidade, distorcida. E essa distorção é tão forte que podemos remontar os problemas ambientais dentro de uma interpretação cristã de realidade. [Existem muitos artigos de biologia e ciências ambientais que fazem esse trabalho, “A revolução industrial foi o primeiro grande impacto ambiental devido a uma má relação do homem com a natureza a partir da interpretação cristã de mundo reservado para a condenação”]
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O problema é que mesmo dentro da história da filosofia os herdeiros de Platão, não percebendo a destrutividade do dualismo, prosseguiram explicando um mundo ideal e um mundo real, um mundo acessível e um mundo inacessível, um mundo que se não existisse ainda poderíamos pensar, um mundo controlável, por ser inferior ao império racional humano da civilização ocidental, totalmente distinto dos irracionais orientais/ocidentais geográficos do novo mundo/africanos.
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A possibilidade de achar que podiamos ter o controle nos deu um pseudo-controle…

Sobrenatural

Voltemos a interpretação de Nietzsche em relação ao cristianismo: A potencialidade destrutiva do cristianismo [ocidental] é o seu excesso de controle, eles aparentam saber como o mundo funciona, afinal são filhos do dono, né? Mas e se o dono não revelasse como o mundo realmente funciona. E se o dono fosse tratado como realmente transcendente como as teologias sistemáticas dizem. O mundo seria expressamente lógico? Ou seria espantoso?
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O Sobrenatural é aquilo que o homem moderno não pode controlar, e isso aqui é Filosofia, amigos, não esoterismo. Porque a natureza é física, é calculada, é prevista, é controlada. A sobrenatureza não. Ela acontece. O ciclone-bomba não previsto, a onça no meio da mata, a cobra venenosa mordendo o futuro veterinário. A sobrenatureza não é a chama que queima a floresta ela é a fumaça que impede o avião. Ela não é soja plantada, ela é a seca e a doença atiçada devido a falta de cuidado com a natureza. A sobrenatureza é sempre o imprevisível, o milagre, a morte, o nascimento, o defeito, o inimigo, o amigo.
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Trocando em miúdos a sobrenatureza é a parte do mundo que se apresenta por si mesma, antes da explicação dos sintomas a doença já matava, antes da arma de fogo o animal já era mais poderoso que o homem, veja a sua pele sem couraça, suas presas sem força, sua mordida sem impacto, sua velocidade risível, quem é o ser humano? Um agente ridículo O nosso pseudocontrole nos mata e ainda assim achamos que podemos controlar a natalidade e nascemos estéreis, achamos que controlamos a saúde e surgem os cânceres, criamos a política e surgem as pandemias. A sobrenatureza, nestes termos não é um outro mundo é o nosso mundo se mostrando. Não é um dualismo, é uma explicação que precisa ser levada mais a sério.

Conclusões

Logo, o que é o Caos? Levando em consideração o que foi dito, entre seres humanos e natureza, o caos é o incontrolável. O papel da ciência é experimentar o incontrolável e organiza-lo em informação e conhecimento, o papel da arte é sentir o incontrolável e produzir afetos e conhecimento, o papel da filosofia é viver no incontrolável e trazer conhecimento e sabedoria. Ora, o medo de Platão que por algum motivo foi transferido para os cristãos, trouxe consigo uma compreensão da realidade triste e feia, uma perspectiva de controle sem qualquer consciência de si, olhe para você mesmo, você compreende em poucos segundos que não tem controle. Nós gostamos de opiniões seguras, métodos de organização de tempo, etc… Mas falo de algo maior, se Deus é transcendente, criou um mundo com todas as suas leis e especificidades, você pode controlá-lo? E se tudo fosse espantoso? Acho, e só acho, que é aqui que compreendemos o que é servir a todos e a tudo, em outras palavras, nós temos medo do Problema que é encarar um mundo que não é nosso, qual é a sua responsabilidade?

Correspondência (Conclusão)

Correspondência (Conclusão)

Serment du jeu de paume, de Jean-Louis David.

De: Maxwell
Sr. Medeiros
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Ao contrário do que aparentemente imaginou, sua carta anterior me fez pensar consideravelmente; foi com certa incredulidade que notei nossas tão diferentes visões do mesmo texto. Aquilo que você mais odiou, foi aquilo que mais amei. Nunca entendi Sócrates como um herói, a maior parte dos seus diálogos revelam mais fraqueza que força, um desequilíbrio quase degradante. Ainda sim, compreendo que esse filósofo deve ser reconhecido pelas contribuições aporeticas que deu a humanidade. 
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Aquele quadro histórico de Pedro Américo, Independência ou morte, é majestoso e é majestoso não por ser de todo verdadeiro, mas por ilustrar uma história real, associada ao imaginário épico da humanidade; um jumento até pode ser belo, mas um cavalo branco é mais belo ainda. Se no diálogo não há cavalos brancos, há um drama digno de grandes imaginários, e uma discussão apelativa, quase emocional, como que de um roteiro teatral fascinante.
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Acho que é esse último ponto que o senhor tem dificuldade de abraçar. Me parece que o desprezo pelo heroísmo socrático afetou sua capacidade de julgamento, você parece olhar para uma moeda como se ela tivesse somente cara, ou apenas coroa, e nega as duas faces. A maior parte de sua crítica argumentativa repousa sobre a questão da cidade vista como assembleia judicial, e da cidade vista como mantenedora. Achei muito interessante sua explicação sobre a democracia ateniense. Mas parece ser nisto que se resume uma cidade para ti: uma assembléia. A imaginação mais infantil consegue imaginar guardas, soldados, comerciantes e sacerdotes. Penso que o diálogo se resolve de forma muito simples: quando um homem olha para o STF, ele vê uma assembléia de homens que julgam causas, esses julgamentos tem como fundamento a lei, a lei remete ao legislativo, e quem institui os legisladores é o povo, povo esse que é todo pintado pelos diversos agentes de qualquer cenário infantil. 
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O principal argumento de Socrátes é: não posso trair a cidade, pois a cidade cuidou de mim, e se eu quebrar suas regras estarei dando razões para que a minha rebelião seja uma regra ou uma exceção possível. O último argumento não é muito diferente do de Kant. O que Socrátes está dizendo é que o direito é maior que a moral, o direito que vem da cidade, e no fim, é evidente que a cidade é a “pessoa” mais relevante da vida Socrática. 
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Um problema que me vem a mente é se ao invés de ter gratidão pela cidade, o preso na verdade não deveria ter um sentimento de obrigação. Quero dizer, um homem que demonstra sentimentos de gratidão pelos bombeiros ou pelos enfermeiros bem sabe que na verdade essas pessoas estão sendo pagas pela própria sociedade, para fazerem bem o trabalho que fazem (há complexidades que envolvem remuneração e condições de trabalho, mas isto não sobrepõe o compromisso de um contrato trabalhista). Em síntese: Socrates deveria ter sentimentos de gratidão tão expoentes entendendo que os serviços e a justiça realizada são necessárias ao invés de arbitrárias? Penso que não. Gratidão pode acontecer como um sentimento gratuito, o homem Socrátes tem uma dívida. O diálogo é uma exibição do momento em que os homens se curvaram a uma coisa criada por eles mesmos, ao invés dessa coisa se curvar e servir aos homens, seus criadores; o perigo é que o fim da cidade socrática não é Deus, também não é o homem, mas a própria cidade.
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Enfim, acredito que a cidade a que Socrates faz referência é a mesma polis da assembléia, apenas penso que ele usou uma faceta diferente dela, uma perspectiva que bem serviu aos fins do diálogo e ao debate com Criton. A ideia sobre justiça também reaparece no diálogo, como justificativa. Não vejo como esse diálogo deixa de servir ao conhecimento humano. O discurso de Socrátes parece muitas vezes apelativo, mais emotivo que racional, mas para mim, é só uma aparência, seu discurso tem certa razão. O heroísmo socrático é uma roupagem que caiu bem a história, desde que, obviamente, Socrátes não seja idolatrado. Criton é para mim como uma pintura da independência do Brasil, é um diálogo fundamentado em razão, recriado pelo imaginário de uma criança que precisa de uma história um pouco mais dourada e brilhante para contar.

Correspondência Críton (resposta)

Correspondência Críton (resposta)

Caro, Maxwell

Esses dias tivemos uma trégua na batalha da construção e, mesmo assim, parece que o trabalho nunca falta. Diante das tarefas diárias acabei lendo tua carta um dia após o recebimento, o que gerou atraso de minha parte, mas fiquei satisfeitíssimo com o que li, há uma reflexão muito nobre e sincera, e uma problematização interessante sobre a postura de um cristão diante da injustiça, confesso-te que a tua postura diante deste diálogo me pareceu verdadeiramente filosófica, quero dizer, uma postura própria de um filósofo que se apropria das questões mais do que as comenta. Não sei se a minha reflexão acrescentará algo a tua já que a minha é carregada de cólera e desdém.
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Tentei revisitar esta obra e com toda sinceridade não consegui, já a li 2 vezes e, particularmente, tudo que consigo sentir é falta de consistência argumentativa.
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É interessante saber, para recurso interpretativo, que as leis na Grécia Antiga residiam nas decisões populares, Sócrates e Platão nasceram em meio a democracia grega e ambos assistiram o declínio deste regime. Um dos pressupostos do diálogo é que suas personagens e seu autor estão inseridos neste sistema de leis como decisão popular, incluindo vida ou morte.
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O tribunal se organizava todas as manhãs, por meio de um sorteio entre os populares, as tribos gregas (ou cidades-estado) se reuniam para garantir uma balança justa, imparcial, pois o sorteio visava a representatividade de todas as tribos. Nas manhãs de julgamento 500 pessoas eram escolhidas pela sorte. Caso esses 500 cidadãos da Pólis não conseguissem decidir, se sorteava mais um cidadão que decidiria a questão. O Julgamento servia como base para determinar o que era justo, as leis eram as decisões daquele dia.
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Quando Críton observa Sócrates dormindo, imagino que Platão tenha pintado este quadro a partir da noção do filósofo semi-deus, um homem que não se preocupa com as dores terrenas, mas apenas com a verdade eterna, imutável, imóvel, formal, entre outras coisas que a verdade platônica carrega. Sócrates fica surpreso ao acordar e notar a presença de seu amigo naquela cela.
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O desenvolvimento do diálogo me parece progredir na concepção já introduzida de lei como decisão popular, a cidade são os cidadãos atenienses, algo que por mais estranho que pareça para nós, por termos uma política distante através de uma representação falha, os cidadãos influenciavam diretamente na decisão da pólis, pois a assembleia onde estavam os políticos, estavam os juízes e estavam os cidadãos. Logo, a aversão de Sócrates pela ideia de fugir proposta por Críton é interpretada como uma traição ao Povo, mesmo que este povo se configure em duas definições diferentes, tais como Lei e Cidade.
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A minha raiva diante de todo diálogo se instala a partir do momento que as argumentações escolhidas por Sócrates quase sempre passam por uma ideia de povo diferente da pólis, por quê ele faria esta diferenciação é a pergunta de 1 milhão de dólares? Penso que possa ser por precisão argumentativa, mesmo diante do regime democrático falido da Grécia, Sócrates compreende que há uma divergência entre o povo enquanto cidadãos do dia a dia e o povo enquanto membros da Assembleia.
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É importante ressaltar a compreensão de que não se deve retribuir as injustiças com mais injustiças, o mau como resposta ao mau que só pode gerar um mau ainda pior. E a partir daqui não consigo mais encarar este diálogo como uma obra importante para o conhecimento humano.
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O julgamento que Sócrates enfrentará é injusto, já está decidida a sentença e tudo que o diálogo passa é a tranquilidade de um homem que transcendeu as preocupações humanas, incluindo sua família, filhos e mulher. Não há veracidade nessas palavras, não há legítima reflexão, o que vejo é um Platão escrevendo um diálogo morno, sem compromissos com o homem Sócrates, mas compromissado com a ideia filosófica Sócrates.
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Sei que todo o caminho que Sócrates percorre aos olhos de Platão são caminhos iluminados pelas divindades gregas, ao ponto que o próprio Sócrates tem comportamentos divinos, ele bebe vinho durante um banquete inteiro e não fica bêbado, ele passa dias em guerra sem comer ou beber, ele permanece tranquilo diante das adversidades, ele só é quem é por conta de uma revelação oracular, oráculo este que diante das obras trágicas só revela o pior, mas não em relação a Sócrates, não diante do mais sábio entre os sábios.
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Sócrates não é seduzível por aprender que a sabedoria é a melhor amante, ao mesmo tempo que ele é sensual para os jovens que acham sua sapiência atraente, ao mesmo tempo que ele é feio fisicamente demonstrando que até em aparência ele não se encaixa no mundo ateniense de homens de mármore. Para mim este diálogo só reforça minha aversão pelo heroísmo socrático de personagem perfeito que nunca perdeu um debate. Platão fez o mesmo que muitos religiosos fazem, hagiografia, é uma especie de biografia santa, livre de “defeitos”, cheia de argumentos importantes, mas pouco verídicos.

Correspondência Críton

Correspondência Críton

A morte de Sócrates, pintura de Jacques-Louis David

De: Maxwell
Sr. Medeiros,

É bom saber que está iniciando seu projeto de ter uma casa, consigo imaginar o trabalho que deve estar tendo para prosseguir com suas leituras e o fatigante trabalho braçal, mas também imagino o prazer que deve ter em construir algo com suas mãos. Sua carta anterior me trouxe certa satisfação por estarmos nos entendendo, terrível é quando falta compreensão adequada do que as pessoas dizem ou do que pretendem esclarecer. Este é um dos meus textos menos críticos, o diálogo mais me inspirou reflexão do que confronto. Sei que o senhor terá mais a acrescentar ao debate, então aguardo suas considerações. 
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Eu me perguntei várias vezes, se estando no lugar de Socrátes, preso e a espera da morte, se não teria uma atitude diferente da dele, ou seja, se não fugiria com espírito livre e romperia os grilhões da cidade. Eu não encontrei certeza sobre uma definitiva resposta. Sócrates, disperso de qualquer dúvida, diz que seu compromisso com a cidade é maior do que sua própria vida. Um olhar mais aguçado pode considerar isso extremamente comunista, mas não é simplesmente comunista, isto tem relação também com a justiça de um homem, e com as leis de uma cidade.
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Esse homem encarcerado que passou muitos dos seus dias procurando pela justiça nas ruas de Atenas, agora caminhava nas ruas de sua própria morte, ainda a procura da justiça. Criton que estava preocupado com sua reputação caso nada fizesse, recebeu de seu amigo a recomendação de que fechasse os ouvidos para os gritos daqueles que pouco entendiam sobre justiça, e se atentasse, para os legisladores, e para aqueles que sabem o que é justo. Para ele, Criton tinha um grande ardor, e grande vazio de retidão.
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A morte é uma certeza para todos nós, e por mais cautelosos que sejamos podemos ser tão surpreendidos pela morte como o somos pela vida. Já que estamos dispostos neste fragmento de espaço-tempo, a que chamamos vida, devemos escolher a melhor forma de vivermos. Sócrates acredita nisto, tanto por zelar da vida, quanto por zelar da existência após sua morte.
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Uma das coisas mais valorizadas na Bíblia é a integridade, a ideia de um homem que tem seu coração e sua mente totalmente dispostos a seguir incondicionalmente ao bom caminho e não recua ante a face do abismo. É louvável em Sócrates o desejo de morrer de forma íntegra, “viver com honra e viver conforme a justiça”. Discorrer sobre a covardia de um homem incrédulo ante a morte, é como dizem: “chover no molhado”.  
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A questão principal do diálogo pode ser descrita em uma frase: “a cidade pode ser traída?” Ao chegar nesta esquina do diálogo vê-se que a cidade não é tratada como uma coisa, mas como uma pessoa. Podemos trair a quem nos educou? Podemos virar as costas a quem nos deu segurança? Podemos nos rebelar contra quem nos alimentou? Se um pai põe seu filho de castigo por acreditar que o menino disse impropérios, devemos esperar que o menino fuja de casa, ou que ele se submeta a decisão paterna? O agravo da discussão é que Sócrates não será apenas privado de ir ao cinema, ele será obrigado a deixar de viver. É evidente que a República em que Sócrates viveu cuidou de coisas demais, deu coisas demais, e agora resta a Sócrates grande gratidão, mas curiosamente a cidade teve tanta relevância para ele que o mesmo chega a dizer que esta civilização é mais relevante que seu próprio pai. Aqui são demonstrados os perigos de uma cidade paterna, de algo que ocupa um lugar que não lhe pertence e que não lhe é apropriado, algo que não apenas se apossa da vida dos homens mas toma também o significado de suas partidas.
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Enquanto Sócrates se orgulha de ter as leis da cidade como soberanas, Jesus, O Cristo morre não por uma cidade, mas por homens, e quando se dirige as autoridades, diz que a justiça que necessita obedecer não está nas mãos de Pilatos, mas nas de Deus, seu verdadeiro Pai.
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A liberdade que sutilmente proponho não nos livra ao todo do problema do diálogo. Mesmo que a cidade não tome o lugar de nossos pais, até os mais liberais (excetuando os anarquistas e derivados) compreendem que é dela o dever de julgar e de punir. Mais uma vez: o que faz o homem quando são injustas as leis? Eu gostaria de responder com toda liberalidade, mas se não me pesam os grilhões da cidade, me pesa o cristianismo. Embora não seja consenso entre os cristãos as causas de desobediência civil, me parece que, no que não diz respeito a prostrar-nos a cidade, devemos obedece-la.
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Alguns dirão que quando uma cidade deixa de realizar seu papel, e passa a agir injustamente, ela se torna ilegítima e então é dever não obedece-la ou revogar sua autoridade. Creio ser difícil tal constatação uma vez que sabendo das mais injustas, perversas e diabólicas ações de Nero, a carta paulina diz “pois quem resiste à autoridade resiste a ordenação de Deus” e se ausenta de recomendação quanto a possibilidade de rebelião. 
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A relação que o homem possui com o Estado sempre foi e sempre será de difícil compreensão. Sócrates deixa a questão para as mãos da divindade, e do destino; não fazem de forma muito diferente os cristãos, com a divindade, e a providência. 

Correspondência: Hípias Menor

Correspondência: Hípias Menor

Maxwell,

Creio que concluirei esta sessão de correspondências sobre Hípias Menor porque estou trabalhando com a construção de minha futura casa, é estranho falar disso como se fosse algo realmente relevante para a nossa conversa, mas imagino que cartas também carreguem dados pessoais irrelevantes para as discussões. Levando em consideração que estamos ocupados e atarefados te darei a oportunidade de responder esta carta abrindo a discussão sobre Críton, ou Critão (tradução ridícula), para a próxima sexta. É uma forma de te recompensar por esta carta tardia, mas se quiseres responder ainda falando algo sobre Hípias Menor este sábado será muito bem-vindo.
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Creio que a minha falta de clareza seja meu maior problema, por vezes escrevo como se as pessoas pudessem me compreender completamente e isso é terrível, talvez seja vaidade nutrida pela filosofia. Gostaria que nas próximas cartas, se for de teu agrado, marque onde estou sendo pouco claro, se preferires, seja irônico com o minhas incoerências e faltas de clareza. Cartas difíceis de ler são um castigo que não quero lhe impor.
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Todavia ao que me parece tu lestes e interpretastes bem os meus pontos, como a intencionalidade dentro do diálogo e o meu descaso com aquilo que chamaste de intelectualismo, que para o Grego há uma correspondência entre saber e agir quase que imediata, aquele que sabe age conforme sabe e por isso a conclusão do diálogo é definida como Intelectualismo Moral, pois quem faz o mal voluntariamente sabe o que faz e sabe bem.
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É interessante ver como compreende o diálogo e não sei se consigo te interpretar bem, pois apreendi apenas que vês as construções de Platão focadas na filosofia e não muito nos floreios que julgo serem importantes, tal como a discussão inicial sobre os personagens de Homero. E isso é incrível! Porque é possível que eu esteja perdendo tempo demais naquilo que não é central a discussão, mas ler a tua resposta me faz pensar que preciso ser mais atento.
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Por fim, entendo que a questão da politização ficou aquém do que o diálogo tratava, como eu quis deixar o meu conceito para esta segunda troca de correspondências me senti obrigado moralmente a encaixar algo que não tinha nada a ver com a discussão central do mal voluntário ou do meu ódio a essa diálogo. É de rir.
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Abraços.

2. O Sofista de Platão – A Prática retórica do Estrangeiro

2. O Sofista de Platão – A Prática retórica do Estrangeiro

Texto produzido a partir das anotações do diálogo Sofista – Dia 1
Seções I à XII
Posições 17 à 146 kindle

Há algo de intressante que transforma este diálogo em uma malha de perguntas, Teodoro adverte Sócrates para que não encha o Estrangeiro de perguntas como fizera anteriormente com ele… O que complica a minha leitura, pois não compreendo se este diálogo anterior existe e pode ser consultado, ou se é apenas um recurso dramático dentro da escrita platônica. A outra malha de perguntas que se forma é a escolha de Sócrates por Teeteto, afinal o diálogo homônimo deste discípulo se configura em uma exploração epistemológica e, até mesmo, é a definição mais admirada de filosofia da história ocidental, o espanto. Espero que um dia estes textos possam servir de provocações a alguém que estuda bastante, para termos respostas em meio a este emaranhado de dúvidas.

O Estrangeiro inicia sua empresa pela definição de Sofista, e eu acrescentei no final do texto anterior uma advertência. O indicativo de não ser recomendado o Sofista como incentivo ao estudo da filosofia e posso dizer o porquê, assim preparo melhor os meus leitores para os textos que virão a seguir; o Estrangeiro se preocupará durante todo o diálogo com a precisão das definições em relação aos nomes, não admitirá imprecisões, este dado é absolutamente o mais importante. A sua precisão trabalhará com a metodologia platônica de ambiente comum progredindo para ambientes complexos. E essa necessidade de precisões acarretará em alguns estranhamentos como a investigação de conceitos que parecem pouco ter a ver com a discussão central. E esse último dado explica a possibilidade de frustração e abandono da filosofia por parte daqueles que buscam alimentar o intelecto com questões “relevantes”. Porque o Estrangeiro vai se valer do irrelevante como método investigativo.

A investigação se utilizará daquilo que é mais simples pondo a simplicidade em contraste com o conceito almejado, assim o singelo servirá de modelo para o complexo.

E é assim que começamos de vez a tentativa de determinar o que significa Sofista.

Pense em um pescador profissional, diz o Estrangeiro, ele é dotado de alguma técnica, jamais concebamos um profissional sem técnica, profissionais sem técnica são mestres da incompetência. E técnica pode ser dividida em duas categorias: Arte produtiva e Arte aquisitiva.

Sendo que a arte produtiva é fruto de três atividades citadas no diálogo – Agricultura e tudo que cuida do corpo mortal; Manipulação de utensílios; e a Imitação. E a arte aquisitiva como o resumo das técnicas de aprendizagem e conhecimento, contidas nas categorias de ganho, luta, caça e fabricação por meio da palavra ou da ação, procurando se apropriar do que existe naturalmente ou do que foi produzido, ou impedir que os outros se apropriem.

Consegue compreender o quão difícil é se manter atento durante o diálogo? Pois ainda estamos discutindo sobre o pescador, que se enquadra na Arte Aquisitiva. Assim aquisição pode ser dividida em duas novas categorias: 1. Troca, sempre algo voluntário, por meio de presentes, locação ou compra; 2. Captura por meio da ação ou palavra. Sendo esta arte da captura alvo de mais uma subdivisão, classificando luta como a captura vista por todos, inclusive o seu alvo, e caça aquilo que se faz as ocultas. Dentro da caça podemos compreender caça de objetos e a caça de seres vivos. Sendo a caça de seres vivos denominada por caça animal (por essa você não esperava, hein?), e os animais podem ser divididos em terrestres e aquáticos, sendo que para Platão, aves são seres aquáticos, pois sua classificação pouco tem a ver com a nossa biologia moderna. Assim o pescador é um caçador de animais aquáticos. A pescaria pode se desenrolar de dois modos: com cercados ou com golpes. Sendo os golpes interpretados como golpes de arpão ou golpes de anzol, pois o que diferencia um modo do outro é a violência.

Consegue compreender o nível de precisão que o Estrangeiro requer de seus ouvintes? Este diálogo se desenrola para que não haja dúvidas entre os membros do diálogo, por isso a necessidade de tanta precisão. Ao ponto de determinar a pesca com o anzol que golpeia de baixo para cima, fisgando e puxando sua vítima de aspaliêutica.

Mas você lembra qual era a questão inicial?