Apologia de Sócrates – Meleto, Saber, Perda e Abstenção

Apologia de Sócrates – Meleto, Saber, Perda e Abstenção

A proposta descritiva platônica é surpreendente nas entrelinhas, não sei se é de conhecimento geral, mas Platão parece sempre ter em seus diálogos uma controvérsia com os operosos artistas [arte no senso comum atual], atores, poetas, músicos, pintores e escultores. A acusação principal da apologia é totalmente incorporada por Meleto. Assim se lermos a apologia de Sócrates como a primeira obra de Platão a respeito de Sócrates o que vemos é o início de um rancor brotando, a arte matou Sócrates. Se lermos a Apologia como uma obra de divulgação de quem Sócrates foi ao ponto de situar-se no meio do caminho da maturidade platônica, o problema com a arte permanece indefinido.

Meleto é um poeta, pertencente a classe dos quais Platão na República desprezará, apesar de ser um apreciador da poesia, e é desse poeta que sai a segunda e terceira acusações: “Sócrates é réu de corromper a mocidade e de não crer nos deuses em que o povo crê e sim em outras divindades novas”.

A bem-humorada apologia socrática se apresenta, podemos até imaginar as gargalhadas do senhor de 70 anos perdendo o fôlego enquanto diz “ele só pode estar brincando”. Aos leitores da Apologia digo-vos, prestai atenção neste ato, perante a acusação, Sócrates, prossegue em sua oferta generosíssima de buscar apenas a verdade para que a assembleia tenha consciência de quem condenará e quem absolvirá, sem com isso perder a mansidão e o bom humor. O apologista se coloca na posição de um interrogador, arguindo Meleto sobre as acusações.

O diálogo que se segue é um misto de perguntas e respostas bonitas, tal como uma CPI que quer provar o óbvio, mas precisa das declarações dos loucos para o relatório final. Meleto diz que os jovens são melhorados pelas leis, pelos juízes, por toda a população ateniense, menos por Sócrates. A generalização apressada de Meleto revela um espírito inadvertido, pois está perante um filósofo. Pensemos! Na educação, no treinamento, na vida, são os muitos ou os poucos que exercitam a virtude? Se pensarmos no trabalho do professor, mesmo que em equipe, ele é o menor número em uma sala de aula. No treinamento e na vida, poucos guiam muitos, em outras palavras não é o todo que melhora o um, mas é o um que melhora outro um, como o dito Freiriano “A educação não muda o mundo, ela muda pessoas que mudam o mundo”, uma aplicação do pensamento platônico-socrático, mas em que esse pensamento rebate a acusação? Sócrates não pode ser responsável pela corrupção juvenil, pois a corrupção não é produto de uma única ação, ao contrário da virtude, ela é o produto de uma massificação de circunstâncias e pessoas, porém Sócrates ainda dá o braço a torcer e pergunta se Meleto considera que a corrupção induzida por Sócrates é consciente ou inconsciente, há mais um exemplo de humildade aqui, já que ele realmente poderia aceitar a acusação de que corrompe a juventude sem intenção e isso se tornar uma absolvição perante o tribunal ateniense. A resposta do poeta é carregada de incertas, diz que conscientemente o filósofo corrompe os jovens.

A terceira acusação a respeito da introdução de novos deuses é reforçada por Sócrates e novamente desmanchada pela tolice de Meleto, pois seu impeto acusador o atropela acusando o filósofo de, ao mesmo tempo, ser descrente e crente em outros deuses. Não há porque nos determos aqui, apenas reforçar que essa acusação de ateísmo e crença é muito comum ao mundo antigo, os próprios cristãos dos primeiros séculos foram perseguidos em Roma sob a acusação de ateísmo, não adoravam aos deuses oficiais do reino. O problema de Sócrates é diferente porque a introdução de sua defesa foi uma claríssima exposição de que ele se tornou filósofo sob a ordem de Apolo, um deus grego tradicional, a sua coragem enquanto investigador da verdade repousava na honra de ter sido escolhido por um deus. Ao final das três principais acusações Sócrates enuncia a verdade sobre a assembléia, algo que não é exclusivo da Grécia ao pensarmos nas injustiças dos nossos dias “O que me condenará, não é Meleto, Ânito ou qualquer outro, o que me condenará é a calúnia e o rancor”.

O saber de Sócrates

Aquele que afirmar saber o que não sabe só pode ser tolo, hoje em dia temos muito medo de não saber, a internet parece estar sempre ao nosso lado como um princípio de onisciência obrigatório a todos os seres humanos, basta alguns segundos de digitação no celular que você terá todas as fontes necessárias para conhecer o que outrora se formou como uma indagação simples. Não sei se todos foram um dia assim, mas eu me lembro, muito bem, de conversar no colégio com os meus amigos desenvolvendo raciocínios próprios sobre questões absurdas, “o que é a vida”, “o que é o diabo”, “Jesus era um ser humano ou um alienígena”, “e buda, como o caminho da iluminação dele foi importante para toda a humanidade”, nenhuma dessas questões era fácil de responder, até mesmo porque se alguém havia formulado essas questões eu não estava afim de saber, queria as minhas próprias respostas, porém com o avançar dos tempos a cobrança de ter certeza sobre os inúmeros assuntos se tornou uma pressão desnecessária, talvez tenhamos hoje nas escolas uma geração pressionada a memorizar mais respostas do que na época da tabuada decorada, pois eles tem acesso a internet, como se o conhecimento fosse algo que dependesse apenas de uma pesquisa rápida e uma lida despropositada em um conceito. Conhecer envolve conflitos de investigação, debates, discussões, reflexões, atitudes que não se resumem ao Google, apesar dele ajudar bastante.

Sócrates diz “não posso ter medo da morte, pois não sei o que ela é”, ela é ruim? Ela é boa? Ela dói? Para onde vou? Quem afirmaria saber o que é a morte em sua essência, para além das definições biológicas, físicas e químicas. A questão de Sócrates é fundamental para absorvermos o básico de sua filosofia, não posso viver sem investigar, no entanto, se morrerei por causa disso, não temo. As concepções fundamentais precisam ser respondidas com sinceridade, não com objetividade analítica, pois o mais lógico dos homens se dobra ao poder da morte junto as inúmeras dúvidas que dela provém. Por não saber o que ela é, não posso saber o que ela produz. Não saber é o habitat do filósofo e para tal exercício é preciso saber. Sócrates não sabia porque ignorava o mundo ao redor, pelo contrário, sua irônica ignorância vinha do muito investigar, afirmar não saber é procurar saber o que é necessário. A frase “Só sei que nada sei” esconde a vontade de saber tudo. Quanto mais sei, mais necessito saber, pois nada sei. Mas o que realmente é importante saber? Sócrates, em suas investigações registradas por Platão, nos é apresentado sempre como aquele que investiga e propõe reflexões que envolvem, principalmente, a ética do bem viver, a piedade, a justiça, a coragem, o belo, a política, a oratória, a vida e, em sua apologia, a morte. Como o amante da sabedoria experiencia a morte?

Quem perderia mais com a Condenação

A característica injusta do julgamento permite a Sócrates apelar ao seu compromisso divino com o deus Apolo, pois nada do que fez traz a ele condenação real, nenhuma acusação se provou verdadeira, quando muito provava-se contraditória, a defesa foi apresentada e sua missão é divina, se um cidadão é condenado através da injustiça quantos outros também não serão? As leis aplicadas de modo injusto contra um podem vir a ser aplicadas de modo injusto a outros, o inocente paga pelo culpado que é condenado debaixo de injustiças, tão logo quem sofrerá maior dano com a condenação de Sócrates, mesmo que ele morra? Os próprios acusadores, toda Atenas. Se sua missão é divina a divindade o vingará, se sua conduta é justa, os justos também estarão em perigo constante, porque o que mandará no tribunal não será a oratória verdadeira, mas a retórica que melhor paga o júri, onde está a justiça nisso? Atenas começa a ruir.

Abstenção Política

Sócrates frisa seu posicionamento em nome da verdade demonstrando que durante um julgamento considerado injusto somente ele levantou a mão como voto contrário a decisão da maioria, por considerar a injustiça um mal para o condenado e para a sociedade ateniense, no entanto aqueles que encabeçavam a condenação enquanto oradores não abriam mão de reforçar seus posicionamentos políticos, algo que para nosso herói era contra a lei e ir contra a lei não é imoral. O posicionamento de sócrates está embasado em seu gênio, conhecido como Daimon, uma voz consciente que sempre o move para a razão abandonando seus impulsos e meditando naquilo que é piedoso.

Aqui nosso herói conclui sua defesa reforçando seu afastamento da política devido as imoralidades, seu afastamento enquanto mestre, pois nada ensinava, apenas interrogava e se alguma coisa chegou a ensinar nenhum de seus discípulos mais velhos levantou uma acusação contra ele, se Sócrates corrompeu jovens por quê nenhum dos apontados discípulos o acusou, pois todos tem pais, mães, alguns já possuem filhos e esposas, por quê a acusação foi levantada por gente que não andava tentando imitá-lo ou que conhecia intimamente as pessoas que imitavam-o?Mesmo o Poeta Meleto, um representante das tradições mitológicas, está sendo impiedoso por levantar falsas acusações diante da assembléia, será que essa postura agrada algum deus enquanto instrumento de piedade? Sócrates não teme a morte, mas teme a depravação do tribunal, a subversão da justiça e deterioração da civilização ateniense, se ele deve morrer que seja pela verdade.

Apologia de Sócrates – Acusadores, Acusações e Missão

Apologia de Sócrates – Acusadores, Acusações e Missão

A Morte de Sócrates Pintura de Jacques-Louis David

Há duas classes de acusadores espalhadas pelo espaço e tempo na concepção apologética de Sócrates, uma presente, aquela que tínhamos em mente durante a exposição inicial da apologia, a outra, está espalhada no passado, distante ou não, em um pretérito imperfeito sem garantias de afirmações consistentes, a não ser a reação da assembleia diante da defesa-denunciativa do herói platônico.

Neste momento Sócrates adentra o cerne da questão, não apenas os acusadores presentes estão guiando as interpretações dos jurados, como também existiu um trabalho de marketing por fora, onde, cultura, poesia e docência política, guiadas por alguma desavença induziram os atenienses a terem ouvidos de mercador diante das investidas filosóficas de Sócrates, dentre os possíveis arquitetos da condenação definitiva de Sócrates está Aristófanes com sua comediografia Nuvens, que será investigada mais tarde nesta mesma série de textos sobre Sócrates.

Acusações primeiras

Meleto é lido como o primeiro importante acusador, um poeta grego, representante das tradições e dos deuses, aquele que porta a voz dos mitos, das narrações e canções, aquele que grava todas as tradições em sua mente para recitá-las da melhor forma possível, nos diz “Sócrates deve ser julgado pelo crime de investigar indiscretamente, no céu e na terra, razões simplistas sobre questões profundas, ensinando a razão fraca aos jovens”, esta acusação é boba dito nestas palavras, quero dizer, quem deve ser réu por ensinar estupidezes? Depois de viver alguns anos no Brasil começo a compreender que Meleto tinha razão de apelar ao júri por uma condenação sob o crime de má formação, porém a acusação encabeçada pelo poeta envolve sentido, mas não coerência, a realidade apresentada por Sócrates, rebatendo a classe de artistas gregos, é que ele não tem nada para ensinar, ele pode ser um grande investigador, mas não um professor, ele nunca foi contratado para labutar na área, inclusive, se fosse perguntado para os júris naquele momento todos responderiam que Sócrates não é um sofista [referindo-se aos professores da época], quem cobra para ensinar, quem tem carteira assinada é o Sofista. Por exemplo, se vocês me acusassem de estar ensinando a razão fraca com os meus vídeos e escritos espalhados pela internet, minha defesa se basearia totalmente nesse discurso, eu nem formado sou, meus vídeos e escritos são para que eu me discipline e me adestre na sabedoria e no conhecimento filosófico, nunca teve haver com vocês, afinal nem cobro pelos meus conteúdos, cobrem daqueles que pedem dinheiro em troca do conhecimento, julguem aqueles que vendem cursos, eu não tenho nada para lhes oferecer a não ser a minha companhia.

Missão de Sócrates

Mas persistamos na acusação, como Sócrates não é professor se tem discípulos? A filosofia mais importante dentre as gregas é a filosofia herdeira de Sócrates, os tentáculos sapienciais de nosso herói se estendem, como afirmação responsável, até a Idade Média, passando por Gregos, Romanos, Latinos e, para ser irresponsável, brasileiros do século XXI [com algumas ressalvas].

Sócrates sinaliza que a sua ciência e missão são obras da oráculo apolíneo, Pítia, que revelou ao seu amigo Querefonte ser Sócrates o homem mais sábio da Grécia, o interessante é que a resposta do filósofo aos dizeres da pitonisa não foi se alegrar, não foi agradecer a Apolo pela graça alcançada, pelo contrário, ele foi investigar se era verdade, apesar do fundo religioso a postura inicial é cética, tal como um matemático ou lógico que provam um teorema partindo da exceção, se a contradição se provar verdadeira dentro de uma regra, logo essa regra é mal formulada. Sócrates encarrega-se de uma busca para provar o erro de Apolo, primeiro fala com um político, interroga-o sobre a sabedoria e percebe que o político não sabe nada, apesar de dizer que sabe algo, mais do que interrogá-lo, Sócrates passa a querer convencê-lo de sua ignorância. Você já tentou mostrar para alguém que a opinião dela é errada? Pais e mães preparados sabem disso muito bem: Para corrigir é necessário estar preparado para ser odiado.

Sócrates com o tempo deixa de duvidar de Apolo e começa a cooperar com a mensagem do oráculo, busca em toda a Grécia não mais aqueles que são mais Sábios, mas aqueles que descobriram que não são sábios e por isso, verdadeiramente inteligentes, assim angariou “discípulos” demonstrando com suas perguntas que não existe sabedoria entre os intitulados entendedores como os poetas, os políticos/artífices e os oradores, por isso seus acusadores são três, Meleto, poeta, Ânito, político/artífice e Lição, orador. Tão logo, Sócrates pode ser conhecido como um investigador, mas o que ele ensina? A perguntar? Com toda sinceridade, perguntar não é algo que se ensina, existem métodos para trazer coerência a um discurso, métodos para incentivar os estudos, mas a pergunta é um estímulo natural do investigador, a exposição de Sócrates inclusive revela que os jovens o imitaram, imitar não é aprender, apesar de que na imitação muitas coisas podem ser incorporadas, mas não há uma doutrina sofística-socrática para perguntar, assim nosso herói não poderia ser acusado de corromper a juventude com ensinamentos, ensino de raciocínio fraco. Investigação indiscreta por terra e céu, talvez, já que seus atos envolvem interrogar quem diz saber, porém ninguém é constrangido a responder suas perguntas, a investigação não é indiscreta como se promovesse a obrigatoriedade de saber, cada um era interrogado naquilo que dizia conhecer, se ao final a resposta é um humilhante “não sei” isso tem mais haver com orgulho ferido do que com o método investigativo.

Vamos falar sobre Sócrates

Vamos falar sobre Sócrates

Ainda pretendo concluir minhas pesquisas acerca das contribuições platônicas a filosofia da linguagem, porém devido minha longa ausência textual aqui no blog, recompensarei meus leitores e a mim mesmo fazendo uma imersão nos três resgistros mais consultados ao falarmos sobre a existência documental de Sócrates, sendo cada um desses registros facilmente encontrados em bibliotecas, russas e brasileiras, estou falando sobre as obras Apologia de Sócrates de Platão, Ditos e feitos Memoráveis de Xenofonte e a peça Nuvens do comediógrafo Aristófanes. Todas as três obras estão reunidas no exemplar Sócrates da Coleção os Pensadores.

O trabalho de escrita via blog é totalmente diferente das minhas outras tarefas virtuais que envolvem gravação de vídeos e escrita resumida em posts no instagram, aqui eu me sinto mais livre para tornar meus textos mais meus, com erros, acertos, análises bobas e complexas, fatigantes ou instigantes, e em relação a Sócrates não será diferente, todavia ao final de cada bloco de textos a respeito de uma das três obras tentarei gravar um “reels” para o instagram, aqueles vídeos curtos que normalmente tem caráter humorístico, e caso eu não consiga gravar algo muito curto, deixarei algum vídeo por lá. Inclusive, se quiserem me seguir, basta clicar aqui @JonatasFilosofia.

Muito Obrigado.

Aperte os cintos e começaremos mergulhando na obra Apologia de Sócrates, versão da Coleção Os Pensadores, Tradução de Jaime Bruna.

Exórdio – Significado Conceito Retórico sobre o que se apresenta no início de um discurso.

É curioso que, talvez no melhor registro histórico, seja-nos apresentado Sócrates como um apologeta de suas causas. A estilística gráfica utilizada por Platão nos inicia em um povo do qual não temos total compreensão, Sócrates pode ser imaginado aqui como um velho com cerca de 70 anos de idade, no meio de uma assembleia, iniciando sua defesa, ou seja, a acusação já foi feita, o discurso ao qual Sócrates responderá não foi registrado, o máximo que podemos fazer é remontar as acusações a partir da defesa. Do ponto de vista literário, Platão é um gênio, pois montou o personagem sobre os alicerces da curiosidade, quem é este que fala a nós? Por que se defende? Quem acusaria um velho diante de uma assembléia? Será que é grave? Mesmo para nós, conhecedores da história, lê-lo [ouvi-lo] é estar a merce de palavras envolventes e sedutoras. Platão escolhe apresentar seu mestre como aquele que defende a si mesmo, mas algo a mais pode surgir no meio disso tudo.

A introdução da apologética socrática já é cheia de reviravoltas heróicas, ele não é arrogante, sua postura é de quem parece não saber de muitas coisas, nunca foi levado ao tribunal como alvo de julgamento, na verdade, ele é um exemplar cidadão ateniense. Todos já o escutaram falando pelas ruas, não há porque ele mudar seu jeito de expressão, mas aqueles que o acusam, por outro lado, estão dispostos a realmente seduzir seus ouvintes, são mestres da retórica, gigantes na oratória, como um velho se defenderá dos jovens mais rápidos no raciocínio, mais simpáticos aos olhos do povo?

A premissa é simples, eles não dizem a verdade, inclusive inclinam os ouvintes a duvidarem de toda e qualquer palavra que saia da boca desse velho decrépito, aqui há uma tarefa difícil, como defender a verdade sendo que todos estão inclinados a ouvi-lo como um mentiroso, tal como Pôncio Pilatos diante de Jesus, ao afirmar algo verdadeiro o Governante pergunta: O que é a verdade? A verdade enquanto instrumento linguístico para aproximação com os fatos é algo que só faz sentido mediante as fontes que levam até aos fatos, quero dizer, o problema em relação a verdade não é ela em si, mas quem a veicula. Documentos, testemunhas, vídeos, só possuem credibilidade vindo de uma fonte confiável, se há desconfiança, só resta descrença e escárneo, porém Sócrates não tem mais nada para se defender a não ser anunciando a verdade, demonstrando a verdade, apresentando a verdade, uma visão simplista e poderosa da verdade como um instrumento distante o artífice que se utiliza dela, como diz Sócrates ao final do exórdio: “O mérito de um juíz é executar a justiça, o mérito de um orador é dizer a verdade” [paráfrase]