Um texto pra ninguém ler

*Esse texto foi digitalizado tem 2 anos, deixei em meu Facebook para me lembrar que cada um dá o que recebe e não significa que devemos aceitar maus tratos, mas que podemos fazer o que é justo. Amor a quem nos ama imperfeitamente. E reconhecer que todos sofrem com a impotência de voltar no tempo. Pode parecer um texto triste, no entanto não o é.  

” Este é o meu filho, peço desculpas desde já, não sou bom com as palavras. Ele é apenas um garoto deprimido, alguém com a autoestima tão pequena que faz piadas o tempo todo para ser notado de alguma forma, ele é um garoto bonito, porém não se reconhece assim, prefere ser o jovem que faz todo mundo sorrir. Devido algum problema que ele nunca admite ter, sempre está oscilando entre seus sentimentos. Quando criança foi levado ao psicólogo, afinal eu e a mãe dele tínhamos brigas muito feias que nenhuma criança deveria presenciar, ele chorava muito e nós nunca parávamos para conversar com ele sobre, no entanto depois desse acompanhamento ele nunca mais quis ir a outro psicólogo, dizia que odiava ter sua mente sendo invadida. Onde já se viu? O pior é que ele cresceu com esse preconceito. 

 Me disseram uma vez que depressão faz com que as pessoas oscilem entre os sentimentos geralmente raiva e tristeza, mas duvido que ele esteja com isso, ele ainda consegue sorrir de forma sincera, apesar de brincar muito com o perigo, quase como se quisesse cometer um ato impensado contra a própria vida. 

Ele é inteligente e pasmem, ele não reconhece isso nele. 

A ultima vez que conversei com meu filho, ele estava chorando, não pelos olhos, chorava com cada palavra que dizia, parecia me pedir socorro, entretanto ignorei. Não porque não o amasse e sim porque ele tem que aprender. 

Bem, me disseram que ele era inconsequente no que fazia, todo mundo sempre o vê como alguém quieto e eu o vejo assim, mas quando me descrevem quem ele é… Ele não virou nenhum ladrão ou usuário de qualquer coisa, mas me parece que ele se tornou viciado em disfarçar. 

Tenho uma lembrança, uma lembrança que as vezes quero ignorar por saber que naquela época eu de alguma forma poderia tê-lo ajudado: estávamos brigando (eu e minha esposa), vivíamos em um barraco e brigávamos quase todos os dias, mas nesse dia eu vi meu filho chorando e rezando o Pai Nosso, ao final da reza consegui ouvi-lo, antes do amém ele fez uma oração que não fazia parte do conjunto, Papai do céu, meus pais brigam por culpa minha, me tire daqui e eles vão parar de brigar, me mate. Ele não sabia falar direito, mas se sentia culpado e pedia morte… Me desculpem, não sou bom agindo com a minha própria família. Ele cresceu e viu tanta coisa, me viu beber demais, viu e vê sua mãe tendo problemas de saúde graves, viu, viu, ouviu, ouviu, parou de chorar (pelo menos na frente das pessoas). Acho que ele sempre quis chamar minha atenção e agora ele não sabe quem chamar a atenção. Se o ignoram ele se sente machucado, mas ele é bom em disfarçar. Se ele ignora… Ele só está demonstrando o que recebeu. Queria apenas dizer que todos erramos, mas creio que ele é inteligente e não cometerá os meus erros e não ficará preso em seus disfarces. Ele é inteligente. “

Epitáfio

Sonhos podem ser apenas sonhos
Mas mesmo no apenas emocionam-nos

Não me lembro do começo
Mas sei que teve um jeito
Um jeito de me fazer chorar

Hospital, é onde diziamos estar
O senhor estava lá, para vacinar
Tão frágil, tão…envelhecer

Não podia mais te escarnecer
As piadas não produziam mais você
Mas de súbito o percebi manhoso

Todo carinho do mundo ao idoso
Meu idoso, lá estava eu carinhoso
Porém, como de gozação,desapareceu

Se era gozação não me comeveu
Para rir, mas de certo me torceu
Para o chorar, perdi quem carinhar

Era meu momento, era meu amar
Não estava mais onde deveria estar
Nós estavamos no hospital

Me desesperei fora do normal
Briguei com um atendente boçal
Que de tão ignorante me irritara

Sem ele pelo hospital eu caminhara
Cada corredor, subindo toda escada
Ao voltar lá estava meu pai.

Mas esse poema não é sobre pai
É sobre avô,eu pensei ter…ai
O perdido.

A muito ele morreu
Mas o sonho me respondeu
Todo jovem velho é piadista
Mas na velhice precisa de lista
Para ser acarinhado, respeitado
E honrado.

Se sinto saudade ?
Sinto com cada idade

Tenho uma nova oportunidade?
Tenho pai, tenho mãe, eles se aproximam da maturidade.

Honra e respeito a memória de meu avô, morreu já há muito, no entanto sua recordação rápida e curta me emocionou e me fez lembrar que a vida que envelhece não quer escutar piadas, ela quer carinho em forma de ouvido, em forma de abraço, em forma de interesse por suas histórias.


Italo e Seu Antõin – 10 e 11

Esses foram nossos anfitriões na península tão apaixonadamente chamada de ilha, queria poder ser melhor com as palavras, porém no pouco que articulo dedico esse poema a esses dois gigantes homens.



Sorriso no rosto
Jeito de pescador
Um aliás é agricultor

Tens cuidado da mulher
Tens cuidado da mãe
Tens peixe quando der
Tens comida, mãe

Bixo medonho
Falo da rã
Digo, gia
Dizem que branco come
Imagina

Vamu pescá, vamu nadá
Vamu prantá
Vamu os porco alimentá

De manhã são as galinha
Durante o dia os cachorro
Os porco, come tudo
Até caroço

Nóis se diverti e ajudá
Nóis tá aqui tem umas luas
No barco, só rema se tiver muié
Não precisa de muita, só uma
Sabcomé

Samo daqui a muitos ano
Não podemo construir mais nada
Por causa dos branco
Cercaram nossa casa dizendo
É parque, não pode haver desmatamento
A gente não que desmata
Só que podê prantá
Agora sou preso ao sempre pescá

Branco é doido

Girando e remando – 11/01

O rio é calmo
Só tem piranha
De vez em quando cobra
Mas é calmo
Calmo e manso
Atravessaremos remando
Quando for assistir
Iremos até ali
Perto, dá pra nadar
Dá pra remar
Calma, sicronizar
Rema, rema
Gira, mesmo lugar
Gira, gira
Voltamos avançar
As vezes, desespero
Só girou
As vezes, gritou
Sem desprezo
O rio é calmo
O rio é limpo
O rio sente
A gente não mente
O rio é obra
O rio é girar
Remar
Remar
Se acalmar
O braço cansar
Conseguimos atravessar

As Dunas – 11/01

Lençóis descobertos
Sem água nem acesso

Lençóis sem lagos
Apenas areias
Apenas passado

Ainda assim tudo é tão belo
Tudo é perfeitamente certo
As dunas, o rio, a beleza, viu?

Cada corrida, cada tempestade
Tempestade de areia, tempestade
De peia.

Doía, doava, dormecia
Lembrança que cansa
Canseira que dança

Saracoteia e pulsa
Coração, impulsa
Impulsa minha lembrança
Das Dunas.

A ilha – 10/01

Parece isolada, mas é conectada
Apelido, ilha somente para camaradas
O nome é península, mas não muda nada

Se pudesse descrever, descreveria como nossa
Nossa casa
Nossa roça

A ilha de tão simpática só tinha areia
Acampados no meio da terra que ela semeia
Havia frutas, animais e beleza

Havia família
Havia uma casa na ilha
Todos cordiais
Todos cheios de vida

Amo tal ilha
Porque não me sendo nada
Se tornou tão minha

É praga de lepra

Quando a ferida é mais funda que a pele
Quando a pele é mais suja que a veste
Quando a justiça já não serve
É praga de lepra

Quando o espancar se torna cotidiano
Quando o epíteto se torna justiceiro do ano
Quando a morte é apenas mais um humano
É praga de lepra

Quando o morto era diferente
Quando a população condunde quem sente
Quando o mundo impede os inocentes
É praga de lepra

A insensiblidade não me comove
Pelo contrário me move
Me cobra e me remove
É praga de lepra

A frieza parece o nosso maior padrão
Dos que gravam vídeos para ter reprodução
Do reconhecimento que orgulha o coração
É praga de lepra!

Tirem do arraial
Retirem do arraial
O coração que produz mau

Tirem do vosso arraial
Retirem da consciência esse mau
É praga que contamina a tal

Quando a cabeça estiver calva
Mas no corpo ainda tiver alma
A praga não o tocou em nada

Atenda a quem tem alma
Atenda com bastante calma
Para que na rotina
A praga não o atinja.